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80+ Por que eu ainda insisto em trabalhar

Por Ernesto Haberkorn

Foto: Vitaly Gariev / Unsplash

Aos 80 e poucos anos, a palavra aposentadoria ganha um tom curioso. Ela aparece como sugestão educada, quase um conselho de quem olha de fora e faz contas simples; idade de um lado, descanso do outro. Só que a vida empresarial raramente respeita fórmulas tão diretas. Quem passou décadas resolvendo problema acorda com uma tendência difícil de desligar; a cabeça continua abrindo planilhas invisíveis antes mesmo do café.

Existe um tipo de energia que não entra em balanço patrimonial, mas sustenta muita empresa de pé. É a vontade de participar, de entender, de ajustar um detalhe que ninguém viu. Em tese, o tempo permitiria reduzir o ritmo; na prática, a experiência cria um desconforto elegante com a ideia de ficar assistindo. Quem já enfrentou crise, folha de pagamento apertada, cliente exigente e decisão difícil, desenvolve uma musculatura que não aceita ficar parada muito tempo.

Alguns chamam isso de teimosia. Eu prefiro tratar como profissão paralela. Há uma disciplina silenciosa em continuar ativo; observar mais, falar na hora certa, evitar atalhos que já mostraram seu custo. A idade traz uma vantagem operacional interessante; diminui a pressa e aumenta o critério. O erro continua possível, mas a reincidência perde espaço, o que já é um avanço considerável na gestão da própria vida.

No mundo dos negócios, sempre gostei da ideia de sistemas integrados. Um ERP bem implementado conecta áreas, organiza fluxo, reduz desperdício. Com o tempo, a própria pessoa vira um sistema parecido; memória, repertório, relações, tudo integrado. Parar completamente seria como desligar o servidor em horário de pico; possível, mas pouco recomendável para quem ainda tem demanda chegando.

Há também um ponto pouco comentado; trabalho dá direção. Não apenas financeira, mas mental. Mantém o raciocínio em movimento, estimula conversas úteis, preserva o senso de utilidade. A alternativa, muitas vezes, é uma agenda vazia que não combina com quem passou a vida preenchendo lacunas. Como costumo dizer, com a leve seriedade de quem já viu de tudo um pouco: "Se eu morrer de tarde, quero ter trabalhado de manhã — mas no outro dia eu acho que vou faltar".

Claro que o ritmo muda; menos corrida, mais precisão. Menos volume, mais impacto. A contribuição deixa de ser força bruta e passa a ser leitura de cenário. É quando a experiência vira ativo estratégico, desses que não aparecem no relatório, mas fazem diferença na decisão certa, tomada no momento certo.

Se isso é teimosia, convém tratá-la com respeito. Porque, no fundo do caixa emocional, ela continua gerando resultado. E enquanto houver problema interessante para resolver, a vontade de trabalhar segue fazendo o que sabe fazer melhor: aparecer cedo, sentar à mesa e pedir a palavra.

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Filosofia de vida

Este texto reflete os princípios NETAS — Natureza, Esporte/Educação, Trabalho, Amor e Saúde.

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